Não, um texto não se começa assim, contudo, devemos admitir que a pessoa (não sei quem foi, uma pena) que escreveu este início pela primeira vez, para dar o pontapé de partida nas histórias da carochinha e contos de fada, foi genial. Tão genial que a expressão foi repetida, repetida e repetida à exaustão a ponto de se tornar lugar-comum.
Iniciar um texto de maneira brilhante é, talvez, o maior desafio de um escritor e isso também serve para redatores, jornalistas, publicitários e afins. Talvez, um bom início seja, inclusive, mais importante que um belo fim. Afinal, ao fim só se chega após a leitura do todo. Sem um bom começo, não há quem leia o porvir e, portanto, o belo fim de nada serve.
Aí você me pergunta: então, Beto, como se faz um bom começo? Pois olha, vou te dizer, não sei. Porque, neste caso, não há regras precisas. O que impera é a prática, um bocado de leitura e uma pitada de talento. Os dois primeiros são fáceis de adquirir. Já o último elemento, só com a ajuda da genética e duma formação voltada às letras desde pequenininho.
Acredito que, esforçando-se nos quesitos prática e leitura (que nem é, convenhamos, um grande esforço), pode-se adquirir certo arsenal para se iniciar bons textos. Vou dar alguns exemplos de grandes começos de textos, de livros, para ser mais exato, que são belíssimos, instigadores da curiosidade e de uma genialidade ímpar. Vou dividir em tópicos para que você possa tentar identificar tais formas em outras
Antecipação
Antecipa fatos futuros da narrativa para criar curiosidade. Se o fato for fora do normal, melhor ainda. Exemplo:
Livro: 100 anos de solidão (Gabriel García Márques)
Primeira frase: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.”
Surpresa
Uma pergunta, se bem feita e cuja resposta é fundamental para o desencadear do texto, pode causar uma curiosidade tal no leitor que o segurará por toda a obra. Muitas vezes, a pergunta pode ser muito simples. Exemplo:
Livro: Hamlet (William Shakespeare)
Primeira frase: “Quem está aí?”
Estranheza
Começar com uma situação surreal, impossível, também é um fator que gera muita curiosidade. Exemplo:
Livro: 1984 (George Orwell)
Primeira frase: “Era um dia frio e brilhante em abril e os relógios batiam 13 badaladas.”
Resumo
Um início que apresenta de forma simples, mas sublime, o assunto do texto também é uma boa opção. O difícil é conseguir fazer isso de forma sintética e habilidosa. Exemplo:
Livro: Anna Karenina (Leon Tolstoi)
Primeira frase: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.”
Revelação
Entregar o ouro, o que seria a grande surpresa do texto, pode ser uma jogada e tanto se isso for algo original. Dar voz a um narrador morto foi algo que Machado de Assis fez magistralmente, em uma época que tal inovação era inesperada pela literatura brasileira. Exemplo:
Livro: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
Primeira frase: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim; isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.”
| | texto inspirado em matéria do programa Globo News Literatura







